sábado, 12 de novembro de 2005

Ivan, o indispensável

Neste sábado carioca de tempo agradavelmente londrino - nublado, quase frio e com ameaças de chuva - lembrei de Ivan Lessa e ganhei 40 minutos lendo suas crônicas no site da BBC. Ivan Lessa é até hoje o que o Pasquim tinha de melhor, acompanhado de perto por Paulo Francis e Jaguar. Saiu um livro com algumas de suas melhores crônicas de auto-exílio inglês ("O Luar e a Rainha", Companhia das Letras). Preguiçoso, ele não quis ser um Campos de Carvalho. Mas é indispensável. Reproduzo aqui uma de suas crônicas recentes:

Intertolices

Um dos verbos mais chatos da língua portuguesa é interagir

É besta em qualquer língua. Antipático até em volapuque. Botem o mundo todo numa torre de Babel (se nela ele já não estiver) e “interagir” é o mais idiota de todos os verbos. Ninguém interage com ninguém. As pessoas se entendem papeando, se desentendem lançando mão da faca ou do revólver, se odeiam trincando os dentes e amarrando a cara, mas nunca, nunca, nunca estarão “interagindo”.

“Interagir” é um desses verbos emergentes que chegou com a informática e agora pegou como sarampo, para usar como exemplo uma doença amena. “Interagir” merecia coisa pior. Em consequência, é claro que a “interação” nos cerca por todos os lados.

Os traficantes estão presos no barracão e a polícia quer uma “interação” com eles de qualquer maneira. A modelo inglesa foi flagrada pelas objetivas em plena “interação” com seis fileiras de pó. O ponta-de-lança tem boa “interação” com a bola. E assim por diante.

Mas o mais chato é a televisão digital nos pedindo “interação” o tempo inteiro. Na verdade, o que eles querem é que a gente aperte ou um botãozinho vermelho ou um botãozinho azul.

“Interação” é válida para tudo. Perguntam se concordamos ou não com o furacão Samuel (o próximo na lista). Caso positivo, apertar o botão vermelho. Caso negativo, apertar o botão azul. Umas horas depois e dão o resultado da “interação”. 87% discordam da presença do furacão Samuel no golfo do México ameaçando ou o Texas ou a Louisiana. 13% aprovam. Isso significa que oito pessoas e um menino mirrado apertaram o botãozinho azul. E 13 velhinhos confusos queriam mudar de canal e acabaram apertando o botãozinho vermelho.

Agora, em novembro, os jornais anunciam com grande destaque que um dos principais canais de televisão vai lançar o primeiro (ai!) drama “interativo”. Trocando em miúdos: se uma personagem é para se apaixonar por outra, tacar o dedão num botão. Caso contrário, noutro botão.

É sim e não, não e sim. E estamos “interativados”. Raios, assim até eu. Quem concordar comigo, aperte qualquer botão nas imediações. Quem não concordar comigo, faço o mesmo. Ao menos, sou mais sincero. Sou todo “interação”.

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