quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Mônica: uma negra de pele clara

Artigo de Mônica Medeiros, dos EUA:

Mônica prefere a diferença racial assumida dos Estados Unidos à cordialidade racial brasileira. Defende as cotas, lá e aqui, e afirma que os brancos reclamam porque não se garantem na disputa com os negros, quando estes ganham uma pequena vantagem.

Impressão de harmonia beneficia os dominantes

Episódios como o processo judicial contra a Universidade de Michigan que, na seleção de alunos, dava pontos extras para os candidatos negros, hispânicos e de outras minorias, forçam os americanos a lembrarem constantemente que a discriminação racial, étnica e também social ainda existe, apesar de todas as leis que não só punem o racismo de todas as cores, mas tentam estimular a integração das minorias. Não há, nos Estados Unidos, aquela impressão de harmonia entre as raças e grupos étnicos que só beneficia os grupos dominantes. Se não há problemas, não há nada a resolver e a vida fica, muito convenientemente, do jeito que sempre esteve: boa para uns e degradante para outros.
A experiência enquanto minoria, mulher de cor – aqui, só é branco aqueles de ascendência européia excluindo portuguesa e espanhola, nada a ver com a cor da pele – vinda da América Latina, me fez apreciar esta oportunidade de quebrar as correntes que prendem as minorias à condição de cidadão de segunda classe. Oportunidade que só se criou por causa do conflito e do confronto. Não que seja fácil, mas a confrontação com essa condição inaceitável permite que alguns fortes se livrem dela. Aquela maravilhosa harmonia racial e social que vemos no Carnaval brasileiro, quando patroas e empregadas, brancas e negras, desfilam lado a lado, gloriosas, pela mesma passarela, acaba quando elas voltam para a casa. A patroa sobe pelo elevador social e a empregada pelo de serviço sem nem questionar porque tem que ser assim.
Acordei para o que é ser mulher, e pude imaginar o que deve ser a vida de negros e pobres, no Brasil. A dor da humilhação de ser considerado ignorante e intelectualmente incapaz só porque seus ascendentes vieram de uma outra parte do mundo, porque a cor de sua pele ou sua cultura é diferente. A frustração decorrente da impotência de convencer aqueles que te discriminam que você não é inferior e é tão ou mais capaz do que eles, que herdaram a condição de superioridade e não necessariamente conseguiriam sustentá-la sem a proteção dos indivíduos mais fortes do grupo. E, apesar de toda essa certeza de superioridade, não se garantem na disputa com as minorias, se a elas é dada uma vantagem para que todos partam do mesmo patamar e, assim, seja garantida uma competição justa. É como as corridas em pistas circulares, em que os atletas que correm nas pistas mais afastadas do centro largam na frente para compensar a maior distância que precisam percorrer. Princípio simples de se entender nos esportes, mas que aparentemente não faz sentido quando se aplica às questões sociais.
Aceitar a igualdade entre os seres humanos, que nos garante a Declaração Universal dos Direitos do Homem (“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”), não é tão fácil quanto a sua racionalização. Ninguém, hoje, consegue racionalizar justificativas para negar a um negro, por exemplo, as mesmas oportunidades que têm os brancos. No entanto, parece normal que a porcentagem de negros com renda que os permita integrar a classe média, americana ou brasileira, seja muito menor que a de brancos. Da mesma forma, com exceção de poucas mulheres, ninguém se choca com o fato de que as mulheres ganham, no máximo, setenta por cento do que ganham os homens para fazer o mesmo trabalho.
Como disse Caetano Veloso há mais de dez anos, para os americanos, “branco é branco, preto é preto e a mulata não é a tal; bicha é bicha, macho é macho e mulher é mulher; e assim ganham-se, barganham-se, perdem-se, concedem-se e conquistam-se direitos”.

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