
Na passagem entre as décadas de 70 e 80, um trotskista porra-louca convivia com a ambigüidade: na faculdade, atacava o reformismo do partidão como se estivesse enfrentando um inimigo de classe; na redação da Zero Hora, onde trabalhava, derramava-se em admiração pelo comunista que chefiava a reportagem.
O velho comuna se chamava João Aveline e era impossível não gostar dele. Protegia seus repórteres como crias. Dedicava o mesmo tratamento, sempre bem-humorado, a quem quer que se aproximasse dele.
Por mais de uma vez, Aveline salvou o meu emprego e me protegeu dos meus próprios erros. Chegou a me esconder no banheiro para não ser visto num momento em que devia estar viajando para uma matéria importante mas acabara perdendo o vôo.
— Fica escondido até o fim da tarde e dê um jeito de apurar a matéria por telefone — foi a ordem taxativa e inquestionável.
Como porralouquice pouca é bobagem, o trosko se superou no dia em que deu de presente ao chefe um livro raro sobre a Coluna Prestes. Com dedicatória! Levou um esporro pela imprudência quase criminosa: Aveline tinha sido preso poucos anos antes e era permanentemente vigiado pela polícia política. Ainda assim, folheou o livro com com curiosidade quase infantil e exclamações empolgadas.
O velho comunista morreu anteontem, aos 86 anos. Foi velado sem missa e sem oração. De místico, apenas a bandeira do PCB sobre o caixão.
Quando as cinzas do corpo de João Baptista Aveline se espalharem pela Baía de Guanabara, atendendo a um pedido dele, uma parte da minha vida estará partindo junto.
3 comentários:
puta que o pariu, que lindo esse texto! o final me fez chorar. será que ainda posso conhecer hj um cara desse tipo? ah, vi ontem um filme que vc precisa ver. chama-se "A História Oficial", filme argentino de 85, vencedor o oscar de filme estrangeiro no mesmo ano, que mostra bem o tipo de relação conflitante entre uma burguesia cega com toda a desumanidade na ponta do nariz. não deixe de ver. vou ver se pego aquele que tu disseste, como é o nome mesmo?, com o michael douglas...
Oi, Mário, seja bem vindo à blogosfera. Cheguei aqui pelo link do Pedro Dória, sempre atento a jornalistas que aderem a essa nova mídia.
Poxa,quero um dia ser chefiada por uma pessoa assim,como parecia ser o Aveline.Lembrei-me dessa história do banheiro...mas esqueci um detalhe:vc conseguiu apurar por tel,escondido no banheiro?
Agora,esse grande jornalista vai "chefiar" o céu.Quem sabe ele não põe ordem?
Um beijo
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