Para conhecer melhor as posições do escritor Amós Oz sobre o conflito no Oriente Médio, reproduzo trechos de uma entrevista, do ano passado, ao jornalista espanhol Sol Alameda, publicada no Brasil pela revista Entrelivros. Amós critica a passividade com que os intelectuais, como ele, interpretam o conflito entre Israel e a Palestina. E questiona até mesmo a maneira como a televisão reproduz atos terroristas, no que chama de pornografia de sangue.
O senhor é um moderado em seu país. Admite que os palestinos têm direitos e promove o Tratado de Genebra, que busca uma solução para que ambos os povos dividam o território. Você não deve se sentir confortável.
Oz - Minha posição nem sempre é fácil. Há muitas pessoas que se transformaram em exclamações ambulantes, em Israel e na Palestina, mas também em Madri. É muito fácil ser um slogan. Eu não pretendo fazer uma reprimenda aos maus, como uma professora vitoriana. Nossos intelectuais e os intelectuais ocidentais têm tradições diferentes. Eles são de esquerda, eu também; são pacifistas, eu também; se opuseram à guerra do Iraque, eu também. Mas vivemos em planetas diferentes, porque para eles o mais importante é decidir quem são os bons e quem são os maus; assinam o manifesto, expressam sua condenação, sua indignação, seu protesto, e depois vão para a cama sabendo que estão no lado dos anjos [dos bons]. Para mim, o importante não é saber quem são os anjos. Não vivo em um mundo de anjos e demônios, vivo em um mundo mais complexo. Em política, sinto-me como se usasse um avental de médico e tivesse diante de mim alguns feridos graves num acidente de carro, todos cobertos de sangue. Não pergunto de quem foi a culpa; pergunto o que posso fazer agora. Para mim é mais fácil dialogar com palestinos pragmáticos do que com dogmáticos pró-palestinos em Madri. Felizmente, tenho de negociar a paz com os palestinos, e não com os amigos espanhóis dos palestinos. Quando falo com colegas palestinos, não os fanáticos, falamos como dois médicos junto ao leito de um paciente. Às vezes, não concordamos com o tratamento, mas...
Mas nunca se conseguiu chegar a um verdadeiro acordo, embora tenha havido momentos em que parecia próximo.
Oz - Porque tanto os israelenses quanto os palestinos têm péssimos dirigentes neste momento. Talvez seja um problema universal, não só do Oriente Médio. São dirigentes sem valor, imaginação ou capacidade visionária. Mas há uma boa notícia, para variar: a maioria dos judeus e israelenses (ou judeus de Israel?) e a maioria dos árabes-palestinos estão, tristemente, prontos para uma solução pragmática. As pesquisas de opinião mostram isso toda semana. Costumo dizer que o paciente israelense ou palestino está pronto para se submeter à operação; não gosta disso, mas está pronto. Mas os médicos são covardes.
O senhor deve se desesperar ao ver como o tempo passa e aumenta o número de mortos...
Oz - O que você acaba de dizer, para mim, é um luxo. Nunca desperdiço tempo para dizer que é terrível. Levanto de manhã e me pergunto o que posso fazer. Pego o telefone, ligo para um amigo palestino, vejo se podemos dar uma resposta conjunta para o atentado da véspera. Se não pudermos aparecer os dois na televisão nessa noite, lhe sugiro uma alternativa. Essa é a mentalidade de hospital. Os intelectuais europeus assinam manifestos, chamam Bush de coisas terríveis; eu também, mas isso não basta. Pode-se chamá-lo de qualquer coisa. E daí? Suponhamos que isso afete Bush e nessa noite todos os norte-americanos, britânicos e italianos saiam do Iraque. E então? Ocorreria um genocídio espantoso. Aqui vai uma tarefa para os intelectuais europeus, os intelectuais espanhóis: muito bem, que saiam do Iraque, mas o que você sugere depois? Outra tarefa: há uma simbiose involuntária entre a televisão e o terrorismo, porque terrorismo significa nos aterrorizar, e eles conseguem isso quando vemos ao vivo imagens terríveis como as [do atentado àquela escola na] Rússia. Talvez não seja preciso ver todas essas imagens. Não estou sugerindo que se pratique a censura. Precisamos saber todos os detalhes por meio do rádio e dos jornais. Mas temos de ver toda essa pornografia de sangue? Não quero que os governos censurem imagens. A liberdade de expressão é sagrada. Mas a sociedade civil e os intelectuais deveriam refletir e talvez tomar a decisão voluntária de não vê-las. Quando vemos tudo o que acontece, estamos fazendo o jogo dos terroristas.
E justificando que agora Putin tome uma série de medidas que atentam contra a democracia na Rússia. Utilizando esse terror.
Oz - Sejam os governos ou os terroristas, a pornografia do sangue não é liberdade de expressão. O que eu quero é ter toda a informação possível e saber de forma imediata o que aconteceu, quantas pessoas, qual é a situação... Por isso é uma tarefa para os intelectuais: onde colocar o limite? Não sei. Mas em vez de gritar "Bush para o inferno!", "Sharon assassino!", "Putin ditador!", os intelectuais não podem fazer um pouco de trabalho intelectual?
Eu gostaria de falar sobre como as coisas se repetem. As pessoas que maltratam costumam ser pessoas que foram maltratadas. Até que ponto, com um muro que Sharon está construindo, não se está imitando a memória coletiva do sofrimento do Holocausto? Qual é a diferença entre o gueto polonês e o muro atual?
Oz - Não é uma boa comparação. Os judeus foram encerrados no gueto para que fosse mais fácil detê-los e matá-los. Na atualidade, existe um muro entre a Europa e África. Cada posto de controle de passaportes é um muro. Mas o que Sharon está construindo não é um muro entre Israel e Palestina, mas no meio da Palestina. Se se tratasse de construir uma muralha entre dois vizinhos que se dão mal, eu diria: muito bem, construam-no entre meu jardim e o dos palestinos. O poeta Robert Frost escreveu que "boas valas fazem bons vizinhos". Mas um bom muro é o que se levanta entre meu jardim e o do vizinho, não no meio do jardim dele. Sharon o está construindo onde não deve. Não tem nada a ver com o gueto, mas ele o levanta para tirar algo dos palestinos. Quando uma pessoa vive num bairro perigoso, põe grades nas janelas, é legítimo; mas se aproveita para tirar um quarto do vizinho, age mal. Mais trabalho para os intelectuais europeus: qual muro é legítimo e qual não é? Dizer "abaixo todos os muros" é infantil. Perdoe, estou utilizando essa entrevista para pedir a meus aliados históricos, ao pessoal de esquerda, que mude sua postura, que faça seus deveres e proponha idéias construtivas.
E o que o senhor diz aos norte-americanos?
Oz - A vida não é Hollywood, não consiste em bons e maus. Nos Estados Unidos, há pessoas que vêem o mundo em branco e preto e, portanto, enviam seus exércitos para lutar. Não são tão diferentes de alguns intelectuais europeus, que também vêem o mundo em branco e preto, mas no sentido oposto. E não têm exércitos para enviar. Nem sequer nos pouquíssimos casos em que seria certo fazê-lo, como atualmente no sul do Sudão ou em Kosovo, há alguns anos.
Então, faça-me um resumo de como vislumbra o futuro imediato.
Oz - Israel tem de abandonar os sonhos de glória bíblica e conformar-se com um lugar reduzido. Os palestinos terão de dizer adeus ao sonho da Palestina anterior a 1947. Terão um apartamento com uma sala e um quarto, e terão respeito. Devemos dividir a casa em apartamentos. Os checos e os eslovacos fizeram isso sem derramar sangue. É possível fazer.
2 comentários:
Marona, não simpatizo com as ações idiotas dos terroristas do Hizbollah. Mas não vejo um fiel nesta balança, no momento em que o número de civis inocentes mortos pelo exército israelense é infinitamente superior ao número de judeus atingidos. Acho que vou terminar tendo que concordar com o Celso -da discussão o CPP no Rio - quando afirma que nada justifica a morte de inocentes. Na verdade, há um quadro profundo de ignorância humana nesta guerra entre judeus e muçulmanos. E falo com muita paz de espírito. Não sou judeu nem muçulmano. Não defendo um ou outro. O que acho é que para interceder de forma radical neste tipo de estupidez é que deveria existir a ONU, que hoje funciona como peça decorativa no jogo do poder internacional.
Concordo com Beto. Israel está errado não somente pela matança, mas pelo pretexto para a invasão. Que tipo de Estado busca pretextos para atacar? Os errados. Uma guerra não é justificável, mas se fosse precisaria ser justificada por uma tese, que neste caso não há. É matança de um país soberano em nome de dois soldados. Nonsense.
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