Meu comentário das 9 e 30 na Rádio Mundial AM1180:
Muita gente diz que a diplomacia é a guerra que se luta com punhos de renda. Ou a política que se adota para evitar uma guerra.
A diplomacia exige suavidade, cordialidade, gentileza. O diplomata diz o que quer e o que precisa ser dito, mas faz isto como se estivesse elogiando o seu interlocutor. Diz não com a doçura de um sim.
Pois o nosso ministro das relações exteriores, Celso Amorim, chefe da diplomacia brasileira, jogou este conceito na lata do lixo e cometeu uma gafe estrondosa na mais importante reunião da Organização Mundial do Comércio dos últimos sete anos, que está começando em Genebra.
Se gafe significa falar a frase errada, no momento errado, no lugar errado e para a pessoa errada, foi exatamente o que fez o nosso chanceler, neste fim de semana.
Dirigindo-se à representante dos Estados Unidos na organização, que tem defendido com unhas e dentes os subsídios agricolas que prejudicam tanto a economia do Brasil e dos demais países em desenvolvimento, Celso Amorim citou Goebels, o ministro da propaganda do governo nazista de Hitler:
“Uma mentira repetida várias vezes acaba parecendo uma verdade”.
Ou algo assim.
O chanceler brasileiro tentava mostrar à representante dos Estados Unidos, Susan Schwab, que ela estava mentindo. Mas não prestou atenção num detalhe: esta senhora é judia e filha de um sobrevivente do holocausto nazista - a perseguição que foi sustentada pela propaganda de Goebels e que matou seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra e mesmo um pouco antes dela.
Não é por acaso que a manchete de hoje do Globo é:
“Acusações de Amorim enfraquecem Brasil na OMC”.
Só podia. O chanceler brasileiro ofereceu aos países ricos o que eles precisavam para não atender às exigências dos países em desenvolvimento: uma frase infeliz.
O assessor da americana reagiu indignado: “Foi inacreditavelmente errado, além de qualquer imaginação. Um ataque pessoal e baixo”.
A reunião da OMC é a última chance de um acordo entre ricos e pobres sobre subsídios. A discussão já se arrasta há mais de sete anos. Se não houver um acordo neste encontro, só dentro de quatro anos existirá uma outra possibilidade de entendimento.
Os países em desenvolvimento que, como o Brasil, são grandes produtores de alimentos, exigem que os ricos diminuam o apoio que dão aos seus próprios agricultores, dificultando as importações para que eles não sofram concorrência em suas vendas.
Os países ricos querem que os países em desenvolvimento reduzam as taxas que aplicam às importações dos produtos industrializados que fabricam.
Os Estados Unidos dizem que reduzirão os subsídios aos seus agricultores mas, na verdade, estão dobrando este apoio.
Estão mesmo mentindo.
Mas Celso Amorim poderia ter usado outras citações para chamar a americana de mentirosa. Em vez de citar um nazista, podia ter citado um americano e dizer:
“O seu país diz que está reduzindo os subsídios agrícolas e na verdade está promovendo um aumento. A senhora está tentando nos enganar. E como disse o seu conterrâneo Abraham Lincoln, ‘pode-se enganar a todos por pouco tempo, pode-se enganar a alguns por muito tempo, mas não se pode enganar a todos por todo o tempo’”.
Teria sido diplomático e, mesmo assim, uma boa alfinetada. Faltaram punhos de renda ao nosso chanceler.
Daqui a pouco mais a gente volta.
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