Meu comentário de 11 e 30 na Rádio Mundial AM1180:
Na cena final do filme os Intocáveis, de Brian de Palma, o detetive Eliot Ness, interpretado por Kevin Costner, está deixando o forum, onde Al Capone acabara de ser condenado, e é interpelado na rua por um repórter, que lhe pergunta:
- A Lei Seca foi revogada. O que o senhor vai fazer agora?
- Tomar um drinque – responde Eliot Ness, que passou parte de sua vida combatendo o desrespeito à lei que proibia o consumo de bebidas alcóolicas.
O personagem ensina, com esta resposta simples, que o funcionamento de uma sociedade depende do cumprimento das leis. Pouco importa se eu concordo com elas ou não. Pouco importa se elas prejudicam meus hábitos ou não.
Há 40 dias, eu podia beber uma dose de uisque e dirigir logo depois. Hoje, isto é proibido.
Há alguns anos, quando estive na Holanda, vi uma cena que me surpreendeu: um jovem andava na calçada fumando um cigarro de maconha. Um baseado enorme. Uma senhora idosa passou por ele, fez uma cara de desagrado, mas não disse uma palavra. Por que? Porque a lei, na Holanda, permite o consumo de maconha. Aquela senhora, que não gostava da lei, ainda assim a respeitou. Mesmo de cara feia.
Recentemente, a Holanda proibiu o consumo de cigarros em locais fechados, com uma única exceção: cigarro de maconha pode, porque a lei permite.
(O que falei até agora é um nariz de cera. Nariz de cera é uma expressão jornalística para criticar textos que demoram muito para entrar no assunto principal).
O assunto principal é a censura, pelo site de relacionamentos Orkut, da página do sociólogo Renato Cinco que defendia a liberação da maconha no Brasil. Censurou também uma comunidade em defesa do uso da cannabis.
Muita gente séria defende a liberação da maconha. Até o governador do Rio, Sérgio Cabral, já fez isto. Não para que ele pudesse usar, é claro, mas porque ele entende que a liberação reduziria a criminalidade. É uma boa discussão.
Mas o que importa, neste momento, como diria Eliot Ness, é que a maconha é proibida no Brasil. Pouco importa o que cada um faz dentro de sua casa. Mas interessa a todos o que se faz nas ruas.
A lei até que ficou bem flexível. Quem for flagrado com um cigarro de maconha no bolso não pode mais ser preso. Responderá a processo em liberdade e certamente não sofrerá privação de liberdade.
Mas a apologia do uso de drogas, incluindo a maconha, continua sendo crime, passível de prisão.
A lei é esta. É ruim? Talvez. Mas até que ela seja mudada, precisa ser cumprida por todos. Aqui no Brasil, aquela senhorinha holandesa que passasse por alguém fumando um baseado teria direito de chamar a polícia.
Leis.
Regras.
Normas.
Compromissos.
Deveres.
Tudo isso parece muito chato.
Mas é assim que as sociedades democráticas funcionam.
Tem que valer para o Daniel Dantas. Tem que valer para o sociólogo com página no Orkut. Tem que valer para mim.
Fora disso, é a bagunça, o jeitinho, a impunidade que sempre beneficia os mais poderosos. É o caos.
E a nossa eterna lamúria contra um país que não dá certo. Muitas vezes por culpa nossa.
2 comentários:
Pedir a liberação não é fazer apologia. Eu mesmo, que não suporto fumaça de cigarro, sou diametralmente oposto à lei que proibe o fumo e lugares fechados.
Sendo local privado, é problema do dono do lugar, dos freqüentadores e dos funcionários. ninguém é obrigado é freqüentar um "defumatório" nem a trabalhar nele.
Eu já freqüentei alguns por achar a relação incômodo x benefício ainda era favrável. E acho que acertei
Como bem colocado pelo João Pequeno, seu post comete o engano de igualar o debate sobre a legalização das drogas com apologia. E você se contradiz, pois afirma tratar-se de "uma boa discussão". Uma boa discussão pode ser enquadrada como apologia? Trata-se obviamente de uma artimanha jurídica para restringir a liberdade de expressão, e deveria ser denunciada, não justificada.
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