sexta-feira, 18 de julho de 2008

A cidade da luta

Meu comentário das 9 e 30 na Rádio Mundial AM1180:

O governador Sérgio Cabral fez uma pergunta séria, ontem:

“Que cidade é essa onde inocentes morrem e PMs são metralhados?”

O jornal o Dia respondeu, em sua manchete: “É a cidade do luto”.

A cidade em que a polícia matou João Roberto e outros inocentes. A cidade em que bandidos mataram, ontem, dois policiais na Zona Sul, ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Minha revolta com tantas mortes não é menor que a do editor que fez a capa do Dia. Mas eu discordo. Para ele, o Rio é a cidade do luto. Para mim, o Rio é a cidade da luta. Uma cidade que, contra todas as notícias ruins, acorda alegre, principalmente numa sexta-feira como esta que estamos vendo. Uma cidade de cidadãos que contrariam o noticiário e andam nas ruas, lotam cinemas, enchem bares, ocupam praças e praias. Uma cidade que tem medo mas que enfrenta seus fantasmas. Uma cidade que luta contra seus defeitos.

O governador também perguntou ontem se é esta a cidade que nós queremos.

É e não é, governador. Eu quero a cidade que luta. Quero uma polícia menos truculenta e menos corrupta. Quero policiais bem pagos e bem treinados, para que eu possa ter medo apenas dos bandidos e nunca daquele que foi contratado para me proteger. A cidade que eu quero terá favelas porque elas não podem mais ser extintas à força, como já se tentou fazer em outras épocas. Mas as favelas serão bairros – limpos, organizados, com serviços públicos funcionando, com a presença do estado e, antes de mais nada, sem traficantes e sem milicianos. Lugares em que também existirá lei. O lugar dos traficantes e milicianos é Bangu, não o bairro, mas Bangu 1, 2, 3, 4 e quantos mais forem necessários para abrigar – e manter presos os maiores inimigos do Rio.

Mas a cidade que eu quero não depende apenas do estado e da polícia. Depende de mim. Eu não procurarei brigas nas ruas. Eu não estacionarei meu carro em cima das calçadas. Não trancarei com meu carro os cruzamentos e as esquinas. Respeitarei pedestres. Respeitarei os direitos dos outros, antes de gritar pelos meus. Manterei as praias e as calçadas limpas. Não furarei filas. Não consumirei as drogas que mantêm ricos e violentos os traficantes que eu quero que a polícia retire das ruas. Não subornarei policiais que, depois, acusarei de corruptos. Serei cidadão.

Darei exemplo e, aí sim, terei força moral para atacar qualquer governo que não cumpra com suas obrigações. Sobretudo, amarei o Rio.

Hoje de manhã, eu escrevi no Google a frase por que amo o Rio e obtive, vejam só, 7 milhões e 560 mil respostas. Praticamente uma resposta para cada habitante da cidade. O carioca ama o Rio e espera que os seus governantes demonstrem o mesmo sentimento. No amor ao Rio, temos grandes exemplos em Tom Jobim, Vinicius de Morais e em tantos outros poetas. Temos muitos exemplos no povo.

Infelizmente também são muitos os exemplos de desamor e desprezo pela cidade, no povo e em governantes que não souberam entendê-la e respeitá-la. Governantes que permitiram que as favelas crescessem sem nenhum controle. Que não combateram o tráfico quando ele ainda não tinha tanto poder. Que não impediram a polícia de se corromper quando ainda era possível controlá-la. Mas como dizia Mário Quintana, eles passarão, nós passarinho. E o Rio continuará sendo a cidade DA luta. A mais linda, acolhedora e carinhosa cidade DA luta que eu já conheci.

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