terça-feira, 22 de julho de 2008

Filme nacional só para ricos é crime

Muito boa a resposta de Adailton Medeiros, diretor do Ponto Cine, uma sala de cinema digital em Guadalupe, subúrbio do Rio - e bota subúrbio nisso - ao diretor Murilo Salles, que escreveu um artigo para o Globo se queixando do fato de que o seu novo filme, "Nome próprio", não ficará muito tempo em cartaz nas salas multiplex da Zona Sul e Barra porque dará lugar a lançamentos blockbusters americanos.

O Globo fez muito bem em publicar a carta de Adailton na capa do Segundo Caderno de hoje.

O texto merece ser lido na íntegra, mas só está disponível na internet para assinantes, porque o jornal adota a antipática atitude de impedir a transcrição de seus textos.

Ao chororô de Murilo Salles, já mais do que conhecido entre cineastas brasileiros, o diretor do Ponto Cine responde com uma lógica inapelável. Eis um trecho:

"Você sugere a criação de salas digitais pelo Brasil como alternativa aos multiplex, porque elas são mais baratas e, por conseqüência, seriam uma forma de absorver a produção nacional e exibí-la a um maior quantitativo diversificado de público, o que concordo plenamente".

"Acontece que dirijo uma sala nesse modelo no subúrbio do Rio, o Ponto Cine, a primeira sala popular totalmente digital do Brasil, que recebeu no ano passado o Prêmio Adicional de Renda dado pela Ancine, como a maior exibidora de filmes brasileiros em 2006. Apesar de todos esses méritos, por questões estratégicas de lançamento, Nome Próprio foi considerado inadequado, acho que este seria o termo mais correto, para ser exibido aqui em sua semana de lançamento".

Como se dizia antigamente, na pleura! Murilo Salles não estava nem aí para salas de subúrbio como esta, que cobra ingresso de R$ 6 a inteira e R$ 3 a meia entrada. O negócio dele eram salas multiplex com ingressos a R$ 16. Mas ele imaginava que conseguiria adiar o lançamento de Batman?

Mais adiante, Adailton Medeiros elogia Murilo por ter admitido, no artigo que publicou, que Nome Próprio foi patrocinado pelo governo. E acrescenta:

"Se o dinheiro é público, tem que haver uma facilitação para que esse produto possa chegar aos seus maiores investidores, e de uma forma menos perversa".

Ele foi educado. Podia ter dito que filmes patrocinados com o dinheiro dos contribuintes exibido por R$ 16 o ingresso para a classe média da Zona Sul são caso de polícia. É desvio de dinheiro público, que merecia ser investigado pelo delegado Protógenes. Crime agravado pelo fato de o cineasta se recusar a lançar o filme num cinema acessível à população mais pobre.

Num box, Murilo Salles diz que foi tudo um mal entendido, um erro de comunicação.

Então tá...

2 comentários:

João Pequeno disse...

"É desvio de dinheiro público, que merecia ser investigado pelo delegado Protógenes"

Aí, não, né?

Ele ia querer prender o jornalista que entrevistou o cineasta.

Anônimo disse...

Gostaria de agradecer ao Mário Marona pela crítica a respeito da minha carta (que virou artigo), publicada no Segundo Caderno do Jornal O Globo, de terça-feira.
Desde de a sua publicação tenho recebido, de diversas regiões do País, muitas mensagens de solidariedade e apoio ao nosso projeto e a nossa filosofia de atuação. Vários convites para entrevistas em jornais e revistas, e alguns outros para falar em Universidades. Sinto que a publicação não só repercutiu como provocou uma movimentação.
Tomara que a minha manifestação sirva de inspiração para outras pessoas que amam o cinema replicarem esse modelo em suas cidades.
Mais uma vez, obrigado.

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