Deve ser porque perdi completamente a esperança na isenção jornalística: eu tinha certeza de que o caderno de informática do Globo de hoje derrubaria o projeto Orla Digital, que permite acesso gratuito à internet em Copacabana. Derrubar é pouco. A revista Globo Digital trucidou a idéia e ainda usou o peso de sua editora, Cora Rónai, para assinar um artigo tão agressivo quanto contraditório, com o título:
Orla digital
Factóide perigoso:
máquinas na praia
Na reportagem de duas páginas, o leitor é tratado como um parvo. O texto ensina, como se fosse necessário, que não se deve usar laptop na areia ou muito perto das ondas porque água salgada e areia do mar podem estragar o equipamento. (Uau!) Vai mais longe em sua receita: não é bom usar laptop debaixo do sol, principalmente sob um sol de quase 40 graus, quando chegar o verão. Nem Mister Bean chegaria a tanto.
O artigo de Cora,a última página do caderno, chama de "incautos" os turistas e moradores beneficiados pelo projeto. Logo depois, revela: "Adoro wi-fi, não uso celular sem wi-fi, nem preciso dizer que a minha casa é toda wi-fizada... mas wi-fi na praia é, decididamente, uma das idéias mais sem sentido de que já ouvi falar".
Mais ou menos assim: eu gosto, uso, tenho em casa, mas vocês são uns otários por acreditar que podem usar também, e de graça.
Mais adiante, Cora traz a questão óbvia da segurança na orla. E ataca de novo:
"Induzir um turista a usar o notebook na Avenida Atlântica é risco que ninguém, muito menos um governo sério, poderia se dar ao luxo de correr". Cora experimentou o serviço, diz que fez o que sempre fazia, antes do Orla Digital existir, mas desta vez acha, não entendi a razão, que algo mudou:
"Nunca me senti tão insegura usando um celular na orla, e olhem que sempre que passo pela orla no mínimo faço fotos e, freqüentemente, mando mensagens, acesso o blog, leio e-mails".
O que há de diferente agora, a não ser o fato de que outras pessoas podem fazer a mesma coisa que a Cora fazia, só que podem fazer de graça? Ou seja: se Cora usava o seu celular com segurança praticamente sozinha, agora estará acompanhada de muitos outros usuários. Se agora ela tem medo de ser, como escreve, "um pato com uma gigantesca seta metafísica apontada em sua direção", que sentimentos tinha quando navegava na internet com seu celular, no mesmo lugar, sem a companhia de outros usuários?
O Orla Digital causou em Cora um surto de pânico. No último parágrafo, ela afirma:
"Ao contrário do que faço habitualmente, não tive a menor vontade de voltar a pé para casa, apreciando o movimento e o mar; pode ser paranóia de carioca escaldado, mas a idéia de que assaltantes observando o ambiente pudessem ter me visto usando o N95 e viessem me pagar na esquina não me saía da cabeça. Ser carioca não é para amadores".
Antes do Orla Digital, quando usava o seu N95, fazia fotos, acessava e-mails e atualizava o blog no mesmo lugar, esta carioca profissional caminhava alegremente da praia para casa. Ela acredita que não havia assaltantes, punguistas e batedores de carteira em Copacabana até o governo ter a infeliz idéia de oferecer internet de graça naquela área?
O que o Globo Digital deixou de dizer é que o Orla Digital não permite acesso à internet apenas sobre a areia quente e debaixo do sol escaldante. O programa também está acessível, e tem sido usado, nos quiosques mais seguros, nos restaurantes, nos bares e nos hotéis. Se levasse estes locais em consideração, ainda que levantasse os riscos de assalto e prestasse serviço sobre as ameaças da areia e da água aos equipamentos, teria compreendido a utilidade do projeto.
Um comentário:
Perfeito, Mauro Marona. Achei que tinha algo errado com o texto da Cora, mas não tinha me atentado para as incoerências sobre o projeto da Orla Digital. Tenho um amigo que mora em Paris onde foram instalados centenas de pontos digitais gratuitos. Vai ver a Cora apóia a iniciativa lá. No Rio, porém, ela é contra. Coisa de louco, sô! O que deu nela?????
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