quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Bastidores dos seqüestro de Losekan pelo Hezbolah

Manifestei no post sobre o seqüestro da equipe da TV Globo pelos terroristas do Hezbolah no Líbano uma dúvida a respeito das filmagens: como, tendo a câmera apreendida e jogada no porta-malas do carro dos seqüestradores, a Globo conseguiu mostrar o repórter Marcos Losekan e o cinegrafista Paulo Pimentel entrando no carro.

Um leitor deste blog esclareceu. Havia um terceiro jornalista na reportagem da Globo, Tariq Saleh, também brasileiro, que costuma trabalhar como free lance para a emissora. Saleh tem um blog em que relata suas experiências no Oriente Médio. Ele já foi detido pelo Hezbolah em outras ocasiões.

O que continuo não entendendo é a razão pela qual o Jornal Nacional não informou que o momento do seqüestro havia sido filmado por um terceiro jornalista. Permitiu que muita gente pensasse que a matéria era uma cascata.

Eis o texto do Tariq Saleh, que conta em detalhes o seqüestro dele e dos jornalistas da Globo.

Não foi minha primeira vez, tampouco será a última. Mas foi uma amostra mais real do que as experiências anteriores, de como o Hezbollah, uma mistura de partido político, milícia e assistência social, possui uma mão sobre o Líbano que se sobressai à do governo.
Na semana passada, o Hezbollah prendeu a mim e a equipe da TV Globo, formada pelo repórter Marcos Losekann e o cinegrafista Paulo Pimentel. Fomos detidos por mais de cinco horas.
Não, não fomos agredidos fisicamente, mas o fomos moralmente. Não fomos torturados, nem colocados em cativeiro como os paranóicos islamofobíacos adoram pregar. Mas o Hezbollah mostrou a sua cara, mostrou que tem duas facetas – a resistência a Israel e a resistência ao próprio Líbano.
No dia 15 de agosto, eu, o Losekann e o Pimentel estavámos no subúrbio sul de Beirute para uma reportagem sobre um restaurante temático que serve sanduíches com nomes de armamentos e ao som de tiroteios e veículos militares. Conhecida como Dahiyeh, a área é um dos redutos do Hezbollah no país.
Mesmo com vistos legais e credenciais do Ministério de Informação libanês, fomos pedir uma permissão do escritório de imprensa do Hezbollah. Obviamente que uma área tão militarizada e estratégica ao grupo xiita não será um convite a jornalistas, especialmente estrangeiros. O grupo tem direito em garantir sua segurança em prédios e áreas suas, mas não em propriedades privadas. Por isso imaginávamos que não seria problema a autorização.
As permissões costumam sair na mesma hora, mas ela nos foi negada. Por isso ligamos para o dono do restaurante temático, cujo nome é Buns and Guns (Pães e Armas). Com a nossa conclusão de que a filmagem e entrevista se daria dentro de seu restaurante, uma propriedade privada, decidimos seguir adiante. As tomadas externas seriam rápidas. Afinal, tínhamos permissão do governo, o governo libanês, em que o Hezbollah faz parte com ministros.
Errado, o Hezbollah político é uma coisa, o militar é outra totalmente diferente. Em menos de 20 minutos, uma Mercedez-Benz preta com dois homens dentro chegam. Eles pedem para que entremos no carro. Um daqueles momentos em que devemos pensar rapidamente. O que fazer? Desobedecer e protestar? Ou seguir suas ordens para não piorar a situação? Escolhemos a segunda.
Eu já havia sido detido pelo Hezbollah em outras ocasiões (três vezes), no sul do Líbano. Eu sabia que o grupo não era uma Al Qaeda ou qualquer outro grupo terrorista. Quanto a isso, não estava preocupado (e acho que tampouco estavam o Losekann e o Pimentel).
- Entrem no carro, cadê o cinegrafista? – perguntou um dos "hezbolinhas".
- Ele está vindo. Mas o que houve? Temos permissão do governo. – protestei.
- Não interessa, por favor nos acompanhem, é aqui do lado e não vai demorar muito. – respondeu o homem, barba por fazer, cabelo raspado e uma tatuagem no braço esquerdo.
Entramos e o equipamento foi colocado no porta-malas. Fomos levados para atrás de uma grande mesquita ali perto, onde homens carregando fuzis Kalashnikovs (Ak-47) conversavam tranquilamente.
- De onde vocês são? – me perguntou um deles.
- Do Brasil.
- Apenas vamos checar algumas informações.
Nossos passaportes foram confiscados, assim como nossas agendas, relógios, celulares e outros equipamentos. E, após um revista de nossas bolsas, um carro com cortinas pretas estacionou para nos levar à próxima parada.
- Não se preocupem, não vai demorar – disse outro miliciano, trazendo água para bebermos.
Dali fomos levados para um prédio, sem que pudéssemos ver o trajeto. Recebidos por um rapaz que, ironicamente, ostentava um boné do Brasil. Desta vez fomos separados e levados, separadamente, a uma pequena sala.
Eu entrei em uma onde havia uma pequena poltrona, um cinzeiro e uma cesta de lixo. Na frente da poltrona um vidro espelhado, daqueles que se vê em filmes, onde os policiais podem ver o crimonoso, sem que ele possa vê-los.
Após um certo tempo, que calculei uns 15 minutos, um homem fala do outro lado e faz as perguntas de sempre: meu nome, nomes dos meus pais, data de nascimento, etc. Procedimento padrão.
- Por que você está no Líbano?
- Vim para comer sanduíches de shawarma e falafel. – respondi.
- Isso aqui é coisa séria, responda a pergunta.
- Acho que é meio óbvio, sou jornalista, então vim para fazer meu trabalho.
Após outras perguntas sem importância, ele devolve meu relógio. Logo olho para a tampa e vejo se não removida, no caso de terem colocado algum dispositivo dentro. A tampa aparentemente não havia sido removida, já que ainda havia acúmulo de sujeira nas arestas e que teriam saído no caso de tentarem remover. Mas provavelmente foi escaneado, para descobrirem algum localizador (espiaonagem aqui é coisa séria). Sim, ao contrário do que pensam, o Hezbollah detém certas tecnologias.
- Quer tomar algo?
- Não, obrigado,
Ele insistiu. Então eu pedi uma água, que jamais veio.
Depois de uma hora de espera, fomos retirados das salas. Todos nós estávamos tranquilos. Eu achei que dali seríamos liberados, o Losekann achava que não, e ele estava certo. De novo dentro do carro com cortinas pretas e o calor insuportável.
Depois de rodarmos mais um pouco, chegamos a um parque de diversões. Isso mesmo, com restaurantes, salas de jogos e famílias se divertindo. Atrás do restaurante (sempre atrás), sentamos em uma mesa grande e dois jovens vieram falar conosco. Separadamente fomos entrevistados. Mas desta vez eles preenchiam um relatório, questionário pronto.
- Me fale de você, seus pontos positivos e negativos.
- Isso é uma entrevista de emprego? – perguntei.
- Não, mas para nós é importante.
Depois de vários questionamentos, eu me dei conta do que estava acontecendo. Eles estavam nos cansando, nos castigando. Perguntaram até se queríamos beber algo, chá ou água. Certamente a Al Qaeda não trata assim seus “hóspedes”, pensei pra mim.
Depois de mais um tempo pediram a senha do meu e-mail. Eu protestei e disse que não ia dizer. Eles insistiram. Como tenho outros e-mails que uso nestas situações, passei um que continha mensagens atualizadas mas sem importância. Obviamente que depois trocaria a senha.
Enquanto meus colegas eram “entrevistados”, fiquei me perguntando como o Líbano chegou a isto. O Hezbollah, de uma resistência a ocupação israelense no sul do país, se transformou em um Estado dentro do Estado, uma resistência aos próprios libaneses.
Desde que fomos detidos, o grupo violou vários direitos humanos e regras de imprensa. Mas sempre é assim, é fácil criticar o outro. Ali, sentado naquele lugar, em que eu estava cansado de ficar tantas horas respondendo perguntas óbvias, comecei a refletir.
Em 2006, durante a devastadora guerra com Israel, o grupo xiita foi rápido ao criticar o bombardeio israelense ao prédio da emissora Al Manar, de sua propriedade, como um atentado à liberdade de expressão e imprensa. Estaria com toda a razão se, em maio deste ano, suas milícias não tivessem ateado fogo ao prédio da emissora Future TV, o jornal al-Mustaqbal e a rádio al-Sharq, propriedade de Saad Hariri, rival político do Hezbollah.
Ao prender jornalistas, como vários outros antes de nós, o grupo mostra que não tem razão ao criticar os militares israelenses ou os americanos (quando em 2003, na invasão ao Iraque, tanques americanos acertaram o escritório da emissora Al Jazeera, matando o repórter Tarik Ayoub).
- Aqui estão suas coisas, podem pegar tudo e vamos levá-los para que possam pegar um táxi.
- Onde está o cartão de memória de minha câmera? – perguntei, já informando o rapaz que só havia fotos pessoais na memória.
- Vamos ficar com o cartão, e depois de averiguarmos eu te ligo e você poderá pegá-lo em alguns dias.
- Pode ficar com ele. – devolvi.
- Não ficamos com nada, não roubamos propriedade de outros. – falou o hezbolinha.
- Vocês já roubaram nossa dignidade e liberdade. – respondi.
Dali, entramos num carro com dois homens armados com fuzis. Pegamos um táxi após mais de cinco horas de detenção. No caminho só tive uma certeza – o Hezbollah é um câncer que corrói o Líbano. Mas esta doença só poderá ser derrotada pelos próprios libaneses, não por interesses ou agendas estrangeiras.
Mas como fazer isso em um país profundamente dividido? Ainda não há resposta.

6 comentários:

Anônimo disse...

Relativizou um monte o Tariq, que pensa muitas vezes com o o sangue (que não é um elemento pensante) em vez de com a cabeça.

Primeiro, ao dizer que não foram "colocados em cativeiro como os paranóicos islamofobíacos adoram pregar", após ser mantido... em cativero(s) por cinco horas demonstra desconhecer - e voluntariamente - o significado da palavra.

O Hell's Bollah - que pratica terrorismo ao fixar basas militares em prédios residenciais, usando cidadãos comuns que acabam mortos por conta disto como elemento de propaganda antiisraelense - não existe senão por uma agenda estrangeira, de ditaduras islâmicas como a Síria.

Se não fosse por "agendas estrangeiras", aliás, teria caído o apartheid na África do Sul? Ou eles podem somente quando as bobagens são feitas por brancos?

Anônimo disse...

Mais duas coisas: 1) Tariq Saleh não trabalha para a Globo e, sim, para a BBC Brasil. Mounir Safati é que frila para a rede brasileira no Líbano, enquanto Losekan é correspondente em Israel; 2) Aqueles que acham que a Globo contou "cascata" são os maníacos que sempre acham, mesmo sem nenhum indício que aponte para isto e com todas as provas em contrários.

Unknown disse...

João!
Primeiramente, eu quis dizer que não fomos colocados em "cativeiro" ao estilo Al Qaeda (com roupas brancas, na frente de uma camera, prontos pra termos nossas cabeças decepadas).
Em segundo lugar, é fácil criticar estando ae, mas quando se mora aqui as coisas aparecem mais claras...o Hezbollah não é o malvado que o Cidente acredita, nem o bonzinho que os árabes acham. O Hezbollah é uma máfia, com partido político e braço armado (se podemos resumir assim).
Em terceiro, "Hezbollah usou civis como escudos etc.." Quem disse isso? A Inteligência israelense. Você acredita em tudo que te falam? Então, meu amigo, desculpa, mas melhor você vir morar no OM primeiro.
E em último, meu julgamento como jornalista não é baseado na minha origem ou meu sangue, eu critico tanto os árabes quanto critico Israel ou EUA.
Abraço! Tariq Saleh

Unknown disse...

O Mounir Safatli é correpsondente da Globo News, não da Tv Globo. Além da BBC, eu escrevo pra Folha, e além disso sou produtor freelancer para TVs. Por isso estava com o Losekann (já fiz trabalho com a Record também).

Unknown disse...

E se quer entender o que se passou pela minah voz. Eu dei entrevista para uma rádio gaúcha: http://www.leouve.com.br/noticia/28186/Libano-Jornalista-gaucho-e-mantido-refem-pelo-Hezbollah.html

Anônimo disse...

Meu caro João, eu conheço as organizações Globo. Trabalhei lá por 18 anos.

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