À minha direita, a simpática Carina Almeida, da Textual, carregada de dados de pesquisa que traçam um perfil do internauta e da crescente influência dos blogs.
Ao lado dela, o veterano e libertário Carlos Castilho, um apaixonado pela mídia digital e, mais do que isto, um tradutor de caminhos e conceitos para especialistas no assunto e para ignorantes como este blogueiro que vos escreve.
À minha esquerda, o milionário Josias de Souza, da Folha e do blog que chega a ter, como ele disse, mais de um milhão de acessos por mês, números que me deixaram ruborizado, com meus mal e porcamente mil acessos diários.
A bem da verdade, não sei bem o que estava fazendo naquela mesa do forum sobre “as pautas dos blogs e a comunicação pública”, num auditório anexo ao Palácio do Planalto, como convidado de um debate que teve como mediador Nelson Breve, secretário de imprensa da Presidência da República. Deve ter sido imposição do Franklin Martins, em nome dos velhos tempos de convívio no Globo e na TV Globo. Ou eles decidiram que precisavam de um blogueiro mal sucedido, para fazer contraste com o Castilho e o Josias. Talvez seja algum projeto de inclusão social de blogueiros pobres.
O auditório estava lotado de assessores de imprensa de ministérios e órgãos públicos federais da administração direta e indireta. Revi velhos conhecidos e parceiros de redação. Reencontrei até amigos de adolescência e de militância política, como o Carlinhos Muller e o Chico Daniel, com os quais botei em dia uma lista de amigos que não revejo há décadas.
A idéia central da discussão era como as assessorias de imprensa devem se relacionar com os blogs e com o jornalismo feito por meio da internet, acostumadas que estão a lidar mais diretamente com a imprensa tradicional – jornais, revistas, tevês e rádios.
Josias e eu coincidimos na opinião segundo a qual um ponto de partida razoável e obrigatório é melhorar a qualidade dos sites dos órgãos públicos, quase todos feios, burocráticos e pouco movimentados. Eu propus também que alguns órgãos específicos criem blogs, para aproveitar o tipo de conhecimento técnico de que dispõem. Citei como exemplo a Embrapa, o ministério da Saúde, da Educação e alguns outros.
Um dos exemplos que dei: se o ministério da Saúde tem um titular tão polêmico como o Temporão, por que não aproveitar os debates que ele costuma trazer à mídia tradicional e explorá-los num site, ou num blog ou mesmo em chats dos quais o próprio ministro poderia participar?
Outro: se o Bolsa Família provoca tanta controvérsia, por que não acolhê-lhas num blog da própria instituição? Publiquem os artigos do Ali Kamel, que costuma criticar o programa, e apresentem contrapontos às posições dele. Estimulem os cidadãos a participar deste debate.
Tais idéias não pareceram muito sensatas ao auditório. Não faz mal. A certa altura, me senti um populista diante de profissionais muito mais zelosos do que eu. Deve ser verdade. Quem passou pelo brizolismo acaba inoculado por certas manias e fica viciado em apoio popular.
Chegamos a discutir como reagir, num eventual blog de órgão público, diante de comentários agressivos ou grosseiros dos leitores. Para mim, isto é assunto resolvido: entrar no meu blog é como entrar na minha casa. O visitante será muito bem tratado, desde que seja educado, não maltrate o meu cachorro, não dê em cima da minha mulher e não queira monopolizar a conversa. Se for assim, será convidado a sair. Numa instituição pública não é muito diferente. A gente só passa pela porta quando se identifica e recebe um crachá. Se fizer bagunça será retirado pela segurança.
Quanto ao futuro da blogosfera, me declarei pessimista. Afirmei que existem dois tipos de blog jornalístico no Brasil: os que passaram a dar certo porque foram integrados a portais ou a grandes jornais, ou mesmo criados por essas empresas, e os que gostariam muito de pertencer a grandes portais ou jornais, mas não terão audiência se isso não acontecer.
Os demais são blogs feitos por jornalistas que têm tempo de sobra, por falta de trabalho e por vontade de escrever – o meu caso – ou páginas pessoais e de temas muito especificos, que sempre terão um público fiel, porém pequeno. Blogs que não têm abrigo em grandes empresas – UOL, G1, Terra, IG etc – não conseguirãro sustentar seus autores, com raras e respeitáveis exceções, a não ser que se transformem em balcões de picaretagens e mutretas. Mas isto não seria uma novidade da internet. É defeito antigo da imprensa escrita.
6 comentários:
Um sujeito fez um comentário grosseiro sobre este post e eu eliminei, para confirmar o que escrevi no texto. Grosserias, xingamentos, falta de respeito não terão lugar aqui. Contra mim e contra ninguém. Principalmente de quem tem medo de se identificar.
Marona, o que tem de blog de jornalista por aí que , como você, gostam de escrever...
Sei não, heim... acho que essa história de discutir o futuro da blogosfera é pra quem não percebeu o longo futuro que ela já percorreu.
O problema é a indexação. O surfe no Brasil é viciado, não sebem cavucar a rede. Quando o sujeito não faz parte do clube dos porteiros (blogueiros de portal, colunistas de blog) ele não é lido. Você tem um puta blog legal, super atualizado, com toda a sua experiência jornalística de base, só não é tão lido quanto um Josias ou um Noblat porque não tem a indexação dos portais, popularidade dos jornais da rede...mas o que esses caras que se entregam aos portais não percebem é que o trabalho dos portais para manter seus blogs é simplérrimo, coisa que eles fariam sozinhos sem problemas nos serviços gratuitos como o Blogger... Claro, querem ganhar um tutuzinho com o blog, mas pra isso tampouco se precisa de portal. Há meios de ganhar uma grana boa blogando autonomamente. A vantagem nisso é a independência editorial, embora muitos afirmem ter, inclusive o Noblat (rá!).
Caro Marona, trabalho com o Hélio Costa, nas comunicações. A pelestra foi muito válida. Estou ingressando na area do Jornalismo. Ja escrevo para um jornal comunitário e estou abrindo meu web site. Acho que você deve ter mim visto, pois sentei na primeira fila. Quase de frente para vocês.
Na palestra, anotei o endereço do seu blog. Agora sou visitante diário.
Um abraço, e parabéns.
Fabricio Fernandes
fjcomplex@gmail.com
MSN: www.fabriciofernandes@hotmail.com
Obs.: O Slah é o melhor guitarrista. O seu filho tem razão.
Abraço.
Suas sugestões são muito boas. O auditório é que estava de má vontade.
Por outro lado, audiência quem dá é o Google. Por que alguém precisaria de portais, quando a pode criar seu jornal personalizado com RSS feeds?
Retificando meu comentário acima.
"Acho que deve ter me visto". Erros de digitação é muito feio.
Abraços,
Fabrício Fernandes
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