quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Glogo Digital: o melhor amigo do N95

Reproduzo aqui título, subtítulo e o lide da reportagem da página mais nobre do caderno Globo Digital, o suplemento semanal do Globo sobre informática. Trata-se de matéria jornalística, mas a impressão deixada pela página 3 do caderno é que o leitor está diante de um anúncio mal disfarçado. Vamos lá:

"PERFIL
Celular: melhor amigo da mulher
Florista que assina os arranjos mais chiques do
Rio declara sua paixão pelo celular Nokia N95"

Esta é a apresentação da matéria. Um terço da página é ocupado por uma foto da florista com um N95 na mão esquerda e a seguinte legenda:

"SUZANA, SUAS flores e o N95 velho de guerra: a vida
dela nunca foi a mesma depois que comprou o aparelho"

O leitor pode pensar: isto deve ser empolgação excessiva de algum editor. Por maior que seja a utilidade do telefone, o texto certamente não terá este tom laudatório. Eis o primeiro parágrafo da matéria:

"Há dez anos, a cena seria inimaginável. No meio de um churrasco, a florista Suzana Milman começa a fotografar a família de uma amiga. Empolgada pelas crianças, que queriam ver as imagens em um laptop próximo, ela transfere, como mágica, os arquivos para o computador. Primeiro detalhe: Suzana fez as fotos com seu aparelho celular, dispensando uma câmera digital. Segundo: ela usou a tecnologia Bluetooth para enviar tais arquivos. A história pode parecer prosaica em 2008, mas ilustra com propriedade o dia-a-dia da badalada florista que assina os arranjos do hotel Copacabana Palace, da joelheria H. Stern de Ipanema e do Restaurante 00, na Gávea. Suzana Milman é apaixonada pelo celular N95, da Nokia, e é uma desbravadora dos inúmeros recursos que o aparelho oferece."

Foi um erro imaginar que a isenção que faltava aos títulos seria encontrada no texto da matéria. O tom de propaganda disfarçada se estende por toda a entrevista. Isto acontece, a gente pode pensar. Falta de experiência do repórter e do fechador, fechamento apressado, essas coisas. Mas um pulo para a última página do mesmo caderno apresenta ao leitor o seguinte título e primeiro parágrafo de um artigo em que experiência é que o não falta:

"Nokia
O futuro como matéria-prima
Quando gente graúda como os caciques da Nokia se dispõe a compartilhar com nosotros, mortais comuns, suas previsões sobre o futuro da tecnologia, qualquer um com um mínimo de curiosidade e de experiência larga tudo e corre para ouvir - entre outras coisas, porque
não há nada como ter previsões de quem, na verdade, está fazendo o futuro. Assim é que, quarta-feira passada, cerca de 20 jornalistas latino-americanos embarcaram em diversos pontos do continente, indo literalmente num pé e voltando no outro, para ter o privilégio de passar a quinta-feira no novo centro de pesquisa da empresa em Palo Alto, conversando com o CTO Bob Iannucci, o administrador dos centros de pesquisa de sistema Henry Tirri e o anfitrião John Shen, diretor do NRC de Palo Alto."

A página é ilustrada por duas fotos, com a seguinte legenda:

"REGISTROS de viagem (a convite da Nokia), feitos com o N95, claro"

Caderno fechado, na última página se destaca um anúncio de página inteira do celular Sony Ericsson K660. Não há nenhum anúncio da Nokia ou do Nokia N95 em todo o suplemento.

Precisava?

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