quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Jornalistas convocados a vender assinatura de jornal

Tenho ótimas e péssimas recordações do último jornal em que trabalhei no Rio Grande do Sul, antes de fugir para o centro do país em busca de emprego mais estável. Aprendi muito sobre redação e edição no Correio do Povo. Participei, com a redação, de mudanças tecnológicas históricas, na virada dos anos 80, quando o velho Correião trocou a impressão tipográfica a chumbo pelo sistema offset, que já era adotado pela maioria dos grandes jornais.

Assisti à adoção da diagramação num jornal em que as páginas jamais tinha sido desenhadas. Vi também a extinção da linotipia e, infelizmente, dos linotipistas. Fiz grandes amizades, mas também deixei sólidos rancores naquele ambiente de trabalho conturbado e dividido por uma greve que resultou, depois de 47 dias, na falência da empresa.

A greve era inevitável. Não havia nada mais humilhante, para jornalistas e não-jornalistas, do que a longa fila formada diante do caixa, no térreo, para o pagamento de vales de 30 cruzeiros que mal podiam mitigar o atraso de muitos meses de salário. A única discussão possível era se a greve aumentaria ou não a crise da empresa e se acabaria por pressionar seus proprietários a negociar uma solução, com os empregados e com a sociedade, já que o governo os havia abandonado à própria sorte.

Se a fila para o vale de 30 pratas humilhava, antes da greve de 1983/1984, me pergunto o que devem estar sentindo os jornalistas do atual Correio do Povo, hoje um tablóide, de novos donos e, pelo que sabia até agora, sem grandes dificuldades financeiras, diante da nova decisão tomada pela diretoria. Depois da recente demissão de funcionários responsáveis pela venda de assinaturas, a empresa decidiu convocar todos os funcionários - jornalistas, administrativos, de qualquer setor - para que assumam a função de captadores de assinantes.

A notícia, que acaba de ser divulgada pelo site www.previdi.com.br, provoca espanto em mim e, certamente, em qualquer jornalista que tenha tido ou não ligação como Correio. O diretor de redação, Telmo Flor, segundo o site, chamou a redação para uma reunião informal e comunicou que estão todos convocados a participar do programa de venda de assinaturas.

Devem oferecer o Correio do Povo a "familiares, amigos e conhecidos". Telmo Flor estava constrangido, é claro. Encerrou a conversa tão rapidamente quando pôde e passou o esclarecimento das dúvidas para a sua secretária, que informou: a metade da primeira parcela de cada assinatura que conseguir vender será creditada no contracheque do jornalista. Valores iguais, sem discriminação, para editores, repórteres, redatores, fotógrafos etc.

Nenhum comentário:

Postar um comentário