sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pânico nas redações dos jornais

De David Coimbra, na Zero Hora:

O caminho do meio

Havia um tempo em que as redações eram comunistas. Jornalista tinha que ser de esquerda, ou não era jornalista; era preposto patronal. Aí o comunismo acabou.
Mais recentemente as redações tornaram-se neoliberais. Jornalista moderno tinha que defender a liberdade do mercado, ou não passava de um caquético ultrapassado. E agora o neoliberalismo acabou!

Sacanagem com a categoria.

Esse é o problema com a realidade: desmonta as teorias mais brilhantes. Todos aqueles debates entre esquerdistas e liberais, as discussões de bar e bancadas de TV, os artigos tão bem redigidos, os pontos de vista expostos com tanta clareza e objetividade – tudo desperdício de talento e energia.

Hoje em dia, os capitalistas mais devotados defendem a estatização. Mas eles não querem que o longo braço do Estado se estenda na direção da saúde, da educação ou da segurança: querem a estatização do dinheiro! Por Deus! Alguns países estão planejando nacionalizar... os bancos!

Aí está: viver é contraditório.

Fico lendo todas essas notícias sobre os bilhões que vão para o sistema financeiro a fim de estancar a crise. Os Estados Unidos vão gastar US$ 700 bilhões, a Europa outros tantos bilhões de euros, até o Brasil lançará mão de seus bilhões guardados com tanto esmero no Banco Central. Antes, nunca havia bilhões para nada. Os professores ganham mal, os brigadianos ganham mal, as pessoas ficam doentes e não têm dinheiro para ir ao médico ou comprar remédio. Ninguém jamais teve a idéia de dar alguns bilhões para essa gente toda. Agora os bilhões caem em catadupas. Por quê? Porque, segundo dizem, o mercado está em pânico. E os brigadianos? E os professores? E os doentes tantos? Eles não estão em pânico?

Eu estou em pânico. Quero o meu bilhão.

Há 25 séculos havia no Oriente Longínquo um homem chamado Lao-tsé, o “Homem Velho”. Lao-tsé foi o maior filósofo da China. Maior até do que Confúcio. O próprio Confúcio ficou impressionadíssimo quando o conheceu. Comparou-o a “um dragão subindo aos céus, navegando no vento e nas nuvens” – na China, acredite, comparar alguém a um dragão não é ofensa. Lao-tsé, por sua vez, não ficou nada impressionado ao conhecer Confúcio. Não lhe deu a menor importância. Achou-o, inclusive, meio aborrecido.

Esse Lao-tsé foi o fundador do taoísmo, a principal religião chinesa, junto com o budismo. Tao, em chinês, significa “caminho”. O livro que Lao-tsé escreveu é o Tao te-ching: o “caminho do meio”. Quer dizer: há 2.500 anos o velho Homem Velho já sabia qual era a solução. Estado absoluto? Não. Nenhum Estado? Também não. O caminho do meio é a saída.

Um comentário:

João disse...

De fato, as redações tornaram-se neoliberais no mesmo tempo em que o neoliberalismo imperou: nunca.

Esse tal David Coimbra, por exemplo, quando diz que "os capitalistas mais devotados defendem a estatização. Mas eles não querem que o longo braço do Estado se estenda na direção da saúde, da educação ou da segurança" mostra que entende tanto de capitalismo quanto a maioria dos jornalistas: nada.

É a mesma tática usada contra o neoliberalismo: inventa-se o alvo oposto da maneira que se quiser para fingir que se acaba com ele.

Quem defende isso aí não são "capitalistas", pelo menos não os liberais.

Se David Coimbra lesse os capitalistas, de fato, liberais, saberia que - totalmente ao contrário do que tem dito o senso comum - estes são os únicos que se opõem à política americana de socorro aos bancos irresponsáveis.

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