"Maio de 1860
'Nunc et in hora mortis nostrae. Amen.' Terminara a recitação diária do rosário. Por meia hora a voz tranqüila do príncipe lembrara os Mistérios Gloriosos e Dolorosos; por meia hora outras vozes entremeadas haviam tecido um ondulante sussurro em que sobressaíram as flores de ouro de algumas palavras insólitas: amor, virgindade, morte. Durante aquele sussurro a aparência do salão rococó parecia ter sido alterada; até os papagaios que abriam as asas irisadas na seda das tapeçarias mostravam-se intimidados. Entre as duas janelas, Madalena, por todos considerada uma loira opulenta e belíssima, mostrara ares de penitente, perdida sabe-se lá em que sonhos."
Eis o primeiro parágrafo de um dos melhores livros que este blogueiro já leu e releu. A lembrança surgiu da leitura de um blog. O autor, jovem talento do jornalismo brasileiro, anunciava a sessão de autógrafos marcada para o lançamento de dois de seus livros. Dois ao mesmo tempo! Ambos escritos em menos de três meses, na forma folhetim, no próprio blog.
Os livros desse e de muitos novos autores brasileiros pulam dos blogs para o prelo como pães de forma saltam de torradeiras elétricas.
Bendita internet.
Qualquer um pode virar escritor.
Qualquer um pode fazer um livro por trimestre.
Qualquer um pode cobrar pelo acesso, na forma de livros de papel, a textos que já publicou de graça na sua página pessoal na web.
Era diferente no tempo do autor do parágrafo que abre este post.
Ele só teve um romance publicado. Na verdade, só escreveu um livro. Seria difícil ter feito outro. Passou 25 anos pequisando para sua única obra, dois anos escrevendo e morreu, aos 61 anos, sem vê-la publicada. O livro chegou às livrarias em 1958, um ano depois da morte do autor.
Não foi por falta de talento: o romance é considerado um clássico indispensável da literatura universal.
Não foi por falta de influência: o autor era um príncipe.
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