quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O dia em que Hélio Fernandes me demitiu

Na segunda metade dos anos 70, o blogueiro participou da criação de um programa de entrevistas na Radio Gaúcha chamado "Atualidade". Produziu o programa durante mais de um ano, junto com Pedro Haase e Malu Guimarães. Era bem cedo, durava uma hora e meia, tinha como apresentador um conhecido radialista e comentarista de futebol e tinha como marca registrada a quantidade impressionante de entrevistas. Eram muitas, rápidas, com duas ou três perguntas a cada entrevistado, e sempre ao vivo, por telefone. Nenhuma delas durava mais do que quatro ou cinco minutos.

(Informação arqueológica: não existia computador, é claro, nem máquina de fotocópia. O roteiro do programa - um texto para cada entrevista - era impresso pelos próprios produtores com todas as cópias necessárias feitas por uma máquina à manivela chamada mimeógrafo.)

Dava um trabalho inacreditável para os padrões de hoje. Os três produtores tinham que, na véspera, idealizar as pautas, marcar as entrevistas, escrever no roteiro uma breve identificação do entrevistado, o gancho da matéria e três ou quatro perguntas interessantes que seriam lidas pelo apresentador. No dia seguinte, início da manhã, lá pelas 6 e meia, era preciso ligar para todos os entrevistados, pedir que permanecessem em casa para receber nova ligação, com o programa no ar (mais arqueologia: tinha que ser de casa porque naquela época não existia celular), entregar todas as pautas mimeografadaas ao apresentador e ligar novamente para as fontes na hora da entrada ao vivo.

É necessário que se registre que o apresentador não primava pelo alto nível de informação e pela capacidade de agir por conta própria diante do entrevistado sem o apoio de uma pauta mastigada.

E é preciso que se diga que os três produtores eram de esquerda.

O blogueiro talvez não fosse o mais de esquerda, mas era o mais porra-louca. No dia seguinte à anistia, marcou entrevista com Hélio Fernandes, jornalista que tinha sido censurado e preso pela ditadura militar e que, liberado para voltar à atividade, reabriria a Tribuna da Imprensa.

Entregou o roteiro da entrevista com Hélio Fernandes ao apresentador, que nem parecia saber de quem se tratava. Entrevistou o dono da Tribuna como indicava o roteiro e, imediatamente após o programa, pediu a cabeça do produtor, acusando-o de comunista, o que não deixava de ser verdade.

Cabeça pedida, cabeça cortada.

Foi minha única demissão em 35 anos de carreira.

2 comentários:

zé sergio disse...

Quem era a besta? Deixa eu adivinhar? É colorado? O sobrenome começa com O?

Anônimo disse...

Lembro do programa e da besta - o Ranzolin!

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