De quantas maneiras a abertura de uma matéria pode ser escrita? O mesmo fato pode ser narrado com enfoques completamente diferentes. Depende da visão do jornalista, da orientação do jornal, dos interesses de ambos.
Um exemplo.
A abertura da matéria do Globo sobre o comício de Barack Obama em Berlim, ontem:
"A recepção foi de um popstar, as palavras de um político com visão histórica e a mensagem de alguém que sabe que os Estados Unidos têm muito a consertar nas suas relações internacionais. Barack Obama, candidato presidencial americano, foi recebido ontem por 200 mil alemães em Berlim diante da imponente Coluna da Vitória, e defendeu uma aliança multilateral entre seu país e outros no combate ao terrorismo, à proliferação de armas nucleares e ao aquecimento global".
"O comício de Obama, o maior já feito pelo candidato em qualquer lugar dos Estados Unidos, teve dois públicos-alvo: os EUA e a Europa. Para isso, fez menções sutis a dois dos mais importantes discursos já feitos por presidentes americanos, ambos em Berlim."
Como esta abertura seria escrita se o repórter não gostasse de Obama?
"Diante de uma platéia quase totalmente branca de 200 mil pessoas, o candidato democrata Barack Obama mostrou ontem que é capaz de reunir em Berlim, a um oceano de distância de Nova York, muito mais gente do que jamais conseguiu atrair em seu próprio país. O candidato democrata criticou o país em que nasceu para uma multidão de estrangeiros. A cada crítica, o povo de Berlim gritava 'presidente! presidente!' Se as eleições fossem hoje, e se fossem na Alemanha, Obama teria 70% dos votos, embora nos EUA, onde será obrigado a disputar o cargo, esteja a apenas 6 pontos de vantagem sobre seu adversário, John McCain. OBama fez um mea culpa em nome dos americanos:
"Sei que meu país não se aperfeiçoou. Tivemos nossa cota de erros, e houve momentos em que nossas ações no mundo não representaram nossas melhores intenções."
"Obama defendeu uma aliança multilateral entre os Estados Unidos e outros países no combate ao terrorismo, sugerindo com isso que, se fosse presidente na época dos atentados terroristas de 11 de setembro, teria preferido não reagir, aceitando o veto da ONU e a censura dos grandes países europeus à invasão do Iraque."
Há alguma mentira na segunda abertura, escrita por mim apenas como exercício? Não. Os fatos narrados aconteceram e estão na matéria do Globo, da qual os retirei. O que há, no segundo lide, é uma dose de má vontade e uma relação maliciosa entre fatos e frases. Não critico a correspondente do Globo, a experiente Graça Magalhães Ruether. Tenho certeza de que praticamente todos os jornalistas que cobriram o comício de ontem seguiram o mesmo caminho que ela. Impossível não ficar impressionado com o sucesso de Obama em Berlim. Mas um jornaleco republicano teria outro jeito de contar a mesma história.
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