domingo, 21 de dezembro de 2008

Fragmento

- Magnífico, príncipe, magnifico! Coisas assim já não se fazem hoje em dia ao preço atual do ouro.

Sedàra aproximara-se dele: os seus olhinhos vivos percorriam o décor insensíveis à graça, atentos ao valor monetário.

Dom Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; era à afirmação dele, de centenas de outros como ele, às suas intrigas obscuras, à sua avareza e avidez tenazes que se devia o sentido de morte que, agora, claramente, ensombrecia estes palácios; a ele se devia, e aos seus pares, aos seus rancores, à sua incapacidade absoluta de florir, que agora também a ele, dom Fabrízio, os trajes negros dos bailarinos recordassem gralhas que planam, à procura de despojos putrefatos, por sobre vales solitários. Teve ganas de lhe responder de mau modo, de convidá-lo a pôr-se na rua. Mas não podia: era um hóspede, era o pai de sua querida Angelica. Era talvez infeliz como os outros.

- Sim, don Calogero, belo, muito belo. Não tanto, porém, como os nossos filhos.

O Leopardo, de Giuseppe de Lampedusa.

(A partir de agora, sempre que tiver oportunidade, o blog reproduzirá pequenos trechos de textos ou excertos de livros que confirmam a leitura como a mais essencial das atividades humanas)

4 comentários:

Stefano disse...

Boa, Marona. Fora da leitura não há salvação.

Guido Cavalcante disse...

Marona, incrível vc ter desenterrado o Lampedusa.; Acho O Leopardo um dos grandes livros já escritos - além da extraordinária adaptação desse livro para o cinema, pelo Bertolucci. Há um conto do Lampedusa que me amarro: O Senador e a Sereia.

leonardo marona disse...

Guido, companheiro, Lampedusa é realmente um gênio siciliano em fratura exposta, mas a adaptação pro cinema de Leopardo - GRAÇAS A DIO MIO! - foi feita pelo Visconti, que também vem de uma nobreza decadente e, portanto, charmosa.

abs,

leo

ps: ainda espero o convite pro chopinho (cariocamente falando)

Guido Cavalcante disse...

É claro, Leo.Mas a culpa é deo Burt Lancaster, cuja atuação em ambos os filmes me fe3z trocar as bolas :-) O chope tá de pé, esperando passar o Natal e vamos nos encontrar.

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