"O começo da sabedoria é encontrado na dúvida;
duvidando começamos a questionar, e procurando
podemos achar a verdade." (Pierre Abelard)
Dois negros fortes e mal encarados, trajando bermudões e carregando pistolas, promovem um arrastão por três bairros da área mais pobre da cidade e assaltam quase 50 pessoas, quase todas pouco mais do que miseráveis, chegando a roubar a marmita de um operário que ía para o trabalho.
No Rio, nada mais verossímil.
Três carecas de calças jeans e jaquetas com desenhos de suásticas espancam até deixar desfalecido um rapaz que identificam como homossexual na saída de um baile numa região pobre da periferia.
Em São, nada mais verossímil.
No Rio, nada mais verossímil.
Três carecas de calças jeans e jaquetas com desenhos de suásticas espancam até deixar desfalecido um rapaz que identificam como homossexual na saída de um baile numa região pobre da periferia.
Em São, nada mais verossímil.
Três loiros mal encarados, de cabelo raspado, provavelmente trajando casacos de couro, armados de estiletes, atacam uma mulher morena, visivelmente estrangeira, à noite, numa estação de metrô, e submetem-na a torturas infames, retalhando sua pele e deixando em suas coxas o desenho, em carne viva, do partido político que defende a imposição de restrição à presença de imigrantes no país.
Na Suiça, nada mais verossímil.
Os dois primeiros casos de fato aconteceram. O terceiro ainda carece de esclarecimentos.
A advogada pernambucana Paula Oliveira foi mesmo vítima de uma agressão de extremistas xenófobos ou teria se automutilado como consequência de algum distúrbio psíquico?
A polícia de Zurique acredita que a agressão não aconteceu e pretende provar.
A opinião pública brasileira já decidiu que a nossa conterrânea foi agredida, sim.
O presidente da República, induzido pelo ministro das relações exteriores, já saiu em defesa da pátria ofendida e ameaçou levar a Suiça ao julgamento da corte internacional de direitos humanos da ONU.
Hoje, diante das informações de que nem tudo pode ter sido verdade, Lula e Celso Amorim recuaram e, vejam só, manifestaram confiança na polícia de Zurique.
O que faltou a Celso Amorim, a Lula, aos jornais e à opinião pública do Brasil foi capacidade de duvidar.
Fomos vítimas, mais uma vez, de indignação precoce.
Não fará nenhuma diferença se este blog disser que acredita na tese da agressão xenófoba ou da automutilação antes que as investigações sejam encerradas. Por enquanto, o mais honesto é manifestar dúvidas:
- Como a polícia de Zurique costuma tratar denúncias de crime de xenofobia?
- Existe na polícia e na sociedade suiças manifesto preconceito contra estrangeiros?
- Alguém pode ser agredido por três pessoas numa estação de metrô de Zurique às 19h30m sem que a polícia encontre testemunhas do crime?
- As câmeras de segurança do metrô não fizeram nenhum registro da presença da brasileira e de seus possíveis agressores na estação?
- Ao ser agarrada à força por três homens Paula Oliveira não ficaria com hematomas no corpo?
- Por que o namorado de Paula Oliveira, provável pai dos gêmeos que ela diz ter perdido por causa da agressão, ainda não falou à imprensa e nem prestou depoimento?
- É possível marcar à força o corpo de alguém com arranhões ou cortes simétricos, retos e surperficiais?
- Quem diz a verdade: os pais da garota, quando falam que ela foi cortada nos seios, nas nádegas e na vagina, ou os peritos que afirmam que estas áreas não foram atingidas e que todos os cortes foram feitos em locais do corpo que ela mesma poderia ter alcançado?
- Por que, em vez de precipitar-se ameaçando ir à ONU contra um país amigo, o governo brasileiro não pôs um diplomata acompanhando de perto o trabalho da polícia?
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